
O Colchão
Desde os primórdios da civilização, o Homo sapiens desobedece ao nono Mandamento da Lei de Deus. Enquanto o sexto mandamento se refere principalmente aos atos contrários à castidade e à fidelidade, o nono dirige-se ao mundo interior, aos desejos que habitam a consciência e precedem as ações. Mais do que uma simples proibição, esse mandamento constitui um chamado ao respeito pela dignidade da pessoa humana.
Observa-se que nos dias atuais, ele continua sendo aviltado e desmoralizado diante da liberalidade sexual que se expandiu pelo mundo a partir da segunda metade do século XX. Também evoluiu significativamente a forma de se lidar com a síndrome depressiva que pode surgir nos primeiros dias após a descoberta de uma infidelidade. Antigamente, para amenizar os males da traição amorosa, sobretudo entre os homens, recorria-se a artimanha de comprar uma garrafa de cachaça, ouvir um CD de Reginaldo Rossi e alugar o ombro de um amigo para afogar as mágoas. Hoje, procura-se um psiquiatra, inicia-se tratamento com sertralina, realizam-se algumas sessões de psicoterapia e, não raro, obtém-se um atestado médico.
Certa vez, um fato pitoresco aconteceu com o impetuoso cidadão de codinome PP. Ao chegar em casa, embriagado, encontrou a esposa nos braços de outro homem. Indignado, expulsou a consorte do lar e queimou o colchão na via pública, deixando os vizinhos boquiabertos diante da cena.
No dia seguinte, ainda sob os efeitos da ressaca e no auge da prostração, pediu perdão à esposa, trouxe-a de volta para casa e adquiriu, a crédito, um consócio de duas redes, parcelado em doze suaves prestações.
Afinal, entre o fogo da indignação e o arrependimento da manhã seguinte, o colchão foi a única vítima que não teve direito ao perdão.





