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Sinto muita saudade da minha infância, quando eu vivia em uma pequenina cidade. Hoje, tudo mudou. A urbe ficou eletrizante; as pessoas modificaram seus hábitos de vida, assim como os costumes e até a maneira de se relacionar. Antigamente, tudo parecia diferente. Todos se conheciam, se respeitavam e viviam em harmonia. Hoje, trabalho em uma localidade, que muito se assemelha ao cenário da minha infância feliz.

Um dia desses, fiquei na vila até mais tarde. Quando entrei no carro para voltar para casa, notei algo muito estranho… A rua estava completamente vazia. Não havia cadeiras nas calçadas nem crianças brincando. Aquilo me chamou a atenção e me fez pensar: o que estaria acontecendo ali? Procurei me informar e me disseram que naquela tarde, era o dia em que Costinha costumava tomar o seu porre de quinta-feira e ficar bêbado para valer. Ele possuía um Chevette antigo, com pneus carecas e sem cano de escape, que fazia um barulho retumbante. No auge da embriaguez, costumava desfilar pelas poucas ruas do lugar, dirigindo de maneira perigosa, subindo e descendo calçadas e colocando em risco quem estivesse pelo caminho. Diante da situação, seus conterrâneos se reuniram para decidir o que fazer. A solução encontrada, por mais absurda que possa parecer, foi orientar todos a respeitarem o “dia dele”. Naquela tarde, as pessoas deveriam permanecer dentro de casa, retirar as cadeiras das calçadas e não deixar as crianças saírem.
Um silêncio ensurdecedor ruminava a estranha poesia do ocaso.

OS LIMITES DA PERCEPÇÃO
Estive meditando sobre o que faria se ganhasse o prêmio máximo da Mega-Sena, sonho de tanta gente que enfrenta as dificuldades do dia a dia. O primeiro pensamento é que qualquer dificuldade estaria resolvida. Mas a realidade pode ser bem diferente. Ganhar uma grande quantidade de dinheiro e saber o que fazer com ela é tarefa deveras difícil.

O dinheiro multiplica possibilidades, mas não amplia, por si só, a percepção de quem o recebe. A pessoa passa a possuir recursos capazes de sanar muitas dificuldades, porém pode continuar presa às antigas referências, aos mesmos costumes, aos grandes temores e à mesma visão de mundo.

Não quero dizer que pessoas mais estudadas sejam necessariamente mais sábias. Há gente de pouca escolaridade com extraordinário senso crítico, assim como pessoas cultas capazes de dilapidar patrimônios.

Lembrei, então, de Venceslau, um motorista profissional.
– Venceslau, o que você faria se ganhasse sozinho o prêmio máximo da Mega-Sena?
– Primeiro, quitava minha casinha no loteamento Santa Terezinha.
– E depois?
– Depois eu ia a Brasília e dizia: Zé Sarney, pode se levantar dessa cadeira, porque agora ela é minha!

João Teixeira, meu tio-avô, nunca se casou. Ainda na adolescência, sofreu um grande desengano amoroso e decidiu seguir a vida sozinho. Para preencher o vazio deixado pela frustração, encontrou nos livros uma companhia fiel.

Todo o dinheiro que conseguia economizar era investido em obras para a sua biblioteca. Lia durante horas, todos os dias. Naquele tempo, em que não havia internet e as bibliotecas eram raras nas pequenas cidades, sua casa transformou-se, na prática, em uma biblioteca pública. Estudantes iam procurá-lo em busca de orientação para trabalhos escolares, sugestões de leitura e esclarecimento de dúvidas. João Teixeira tornou-se uma verdadeira enciclopédia viva da cidade.

Apesar da vasta cultura, conservava um humor irreverente. Sempre que encontrava uma moça conhecida, em vez de desejar “bom dia”, saudava-a com um inesperado:

— Bundinha!

As jovens sorriam, sem entender muito bem a estranha saudação. Até que, certo dia, uma delas, mais ousada, resolveu perguntar:

— Seu João Teixeira, por que o senhor diz “bundinha”, em vez de “bom dia”?

Sem hesitar, ele respondeu, com a maior naturalidade:

— Por nádegas.

Mestre Heleno era um dos personagens mais admirados da minha infância. Saxofonista da banda de música municipal, parecia transformar o sopro do instrumento em poesia. Nas festas do padroeiro, era ele quem alegrava as ruas com dobrados e marchas. À noite, acompanhava os rapazes que saíam em serenata, emprestando às canções um romantismo que ainda hoje ecoa na minha memória.
Na imaginação daquele menino, Mestre Heleno não era apenas um músico. Era o maior saxofonista do mundo. Um verdadeiro mestre da música.
Os anos passaram. Formei-me em Medicina e fui trabalhar justamente na cidade onde ele vivia. Certa manhã, durante o atendimento no serviço público, a porta do consultório se abriu e ele entrou.
Fiquei profundamente emocionado. Eu, médico recém-formado, teria diante de mim aquele homem que tanto admirara. Recebi-o com entusiasmo:
— Mestre, em que posso ajudá-lo?
Ele sorriu com a humildade que lhe era própria e respondeu:
— Doutor, me desculpe, mas eu não vim para o senhor me receitar, não. Vim lhe pedir uma pequena ajuda para comprar um quilo de arroz.
Confesso que aquelas palavras me atingiram como poucas coisas na vida. O homem que enchia de beleza as festas da cidade, que embalava serenatas e despertava sonhos em tantos jovens, lutava para conseguir o alimento daquele dia.
Nunca esqueci essa cena.
Talvez ela tenha me ensinado que o talento nem sempre é recompensado, que a arte nem sempre sustenta quem a produz e que, muitas vezes, os maiores mestres vivem anonimamente entre nós, carregando dignidade onde a sociedade lhes negou reconhecimento.
Somente hoje encontro coragem para contar esse episódio. Não para expor Mestre Heleno, mas para homenageá-lo e lembrar que, antes de qualquer aplauso, um artista precisa viver com dignidade.

Equipamentos Culturais da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará: patrimônio vivo da arte, da memória e da cidadania

Fortaleza concentra uma das mais importantes redes públicas de equipamentos culturais do Brasil, administrada pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult Ceará). Muito além de espaços destinados à realização de eventos, esses equipamentos desempenham um papel estratégico na preservação da memória, na democratização do acesso à cultura, na formação artística e no fortalecimento da economia criativa.

Integrando a Rede Pública de Espaços e Equipamentos Culturais do Estado do Ceará (Rece), esses centros culturais são referências nacionais pela diversidade de suas ações e pela qualidade de sua programação. Exposições, espetáculos, festivais, mostras de cinema, cursos, oficinas, seminários, concertos, apresentações teatrais, atividades educativas e projetos de inclusão social fazem parte do cotidiano desses espaços, que recebem milhares de visitantes ao longo do ano.

Entre os principais equipamentos culturais localizados em Fortaleza destacam-se o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, um dos maiores complexos culturais do país; o histórico Theatro José de Alencar, símbolo da arquitetura e das artes cênicas cearenses; a Pinacoteca do Ceará, dedicada às artes visuais; a Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece), referência em leitura, pesquisa e formação; o Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS), que alia tecnologia, memória e inovação; a Estação das Artes, importante espaço de convivência e programação multicultural; o Cineteatro São Luiz, patrimônio afetivo da cidade; o Museu do Ceará, o Museu da Cultura Cearense, o Museu de Arte Contemporânea do Ceará, o Sobrado Dr. José Lourenço, o Hub Cultural Porto Dragão, a Escola Porto Iracema das Artes, a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, a Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco, o Teatro Carlos Câmara, entre outros equipamentos que compõem essa ampla rede estadual.

Esses espaços reafirmam o compromisso do Governo do Estado com políticas públicas culturais permanentes, promovendo acesso gratuito ou a preços populares a bens e serviços culturais, estimulando a formação de artistas, pesquisadores e produtores culturais e incentivando a valorização das múltiplas identidades que constituem o povo cearense.

Além de fortalecerem a produção artística local, os equipamentos culturais da Secult Ceará tornam Fortaleza um dos principais polos culturais do Nordeste, atraindo visitantes, pesquisadores, estudantes e artistas de diversas regiões do Brasil e do exterior. Cada equipamento possui uma identidade própria, mas todos compartilham a missão de transformar a cultura em instrumento de desenvolvimento humano, inclusão social, educação e cidadania.

Investir e valorizar esses equipamentos significa preservar a memória do Ceará, incentivar a criação artística, ampliar o acesso da população à cultura e garantir que as futuras gerações continuem encontrando nesses espaços lugares de encontro, aprendizado, reflexão e celebração da diversidade cultural cearense.

 

* EQUIPAMENTOS CULTURAIS | SECULT-CE

  • Arquivo Público Estadual do Ceará
  • Casa de Juvenal Galeno
  • Centro Cultural Bom Jardim
  • Cineteatro São Luiz
  • Museu Sacro São José de Ribamar
  • MIS – Museu da Imagem e do Som do Ceará
  • Centro Cultural Porto Dragão
  • Theatro José de Alencar
  • Vila da Música – Crato
  • Museu da Cultura Cearense
  • Biblioteca Pública do Estado do Ceará
  • Casa de Saberes Cego Aderaldo – Quixadá
  • Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
  • Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho
  • Museu do Ceará
  • Porto Iracema das Artes
  • Sobrado Dr. José Lourenço
  • Teatro Carlos Câmara
  • Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco
  • Museu de Arte Contemporânea do Ceará
O boi-baleia
Netos são seres sublimes, que merecem atenção, carinho e afeto. Os avós, já livres das preocupações próprias da paternidade, podem aproveitar os bons momentos com mais leveza. Não importa se a convivência dura apenas um dia; o essencial é que seja marcada pela empatia, pela alegria e pelo respeito mútuo.
Tenho um neto que ama bois e baleias. Se o meu pai estivesse vivo, certamente iria adorá-lo, pois os dois têm essa afinidade – por bois, principalmente; por baleias, nem tanto.
Certo dia, Bento falou à mãe sobre o desejo de possuir um boi-baleia. Com carinho, ela lhe explicou que esse animal não existia.
Ele insistiu. Ela repetiu a explicação.
– Pois ligue para o meu avô!
Ela me telefonou imediatamente.
– Vovô, quero que o senhor me dê um boi-baleia!
Rapidamente, tive a ideia de criar uma imagem usando inteligência artificial. Concluída a minha astúcia, certo de que conseguiria convencer o fedelho, enviei-lhe a belíssima imagem.
Prontamente, ele respondeu:
– Gostei, vovô! Não se esqueça de trazê-lo na próxima viagem do senhor a Fortaleza.
Diante do impasse, tive de mandar confeccionar uma escultura em 3D, cujo resultado foi sensacional.
Um presente inesquecível – para ele e, principalmente, para o avô.

Marcelo… Marcelo Muamba… Dr. Marcelo Médico… Marcelo, cover de Tim Maia…

O amigo Marcelo Viana sempre foi muito querido por nossa turma, que colou grau em 1982.
Olindense da gema, sempre usou sua capacidade comercial e discursiva para se manter na vanguarda de seu tempo. Era proprietário de uma Kombi, que servia de transporte alternativo para os colegas da turma. Durante as viagens, não se esquecia de oferecer relógios, guardados em um dos bolsos da calça, e canetas esferográficas, acomodadas no outro. O comércio itinerante que mantinha fez com que ganhasse o apelido de Muamba.


Na festa dos dez anos de formatura, sem querer subir ao palco onde a banda tocava, foi empurrado pelos colegas, na força bruta, para cantar. Após interpretar Festa de Santo Reis, de Tim Maia, foi ovacionado. Para resumir o relato: quinze dias depois, foi contratado como vocalista da banda e, no terceiro mês, tornou-se dono dela.
No Brasil, profissionalizou-se como cover de Tim Maia e, no exterior, tornou-se representante oficial do país em apresentações realizadas em cidades europeias.


Recentemente, durante um almoço, conversamos sobre um frevo que temos em parceria, sobre o futuro de nossas crianças e sobre o impacto da inteligência artificial em nosso meio, Marcelo afirmou que a IA não tem muita lábia e que havia perdido um debate para ele.
Eis o diálogo, depois de ele não concordar com uma das respostas:


— Vá para a ponte que caiu, sua safada!
Educadamente, a IA respondeu:
— Vou para a casa do Dr. Marcelo.
Marcelo insistiu:
— Quer casar comigo?
E ela respondeu:
— Desculpe, mas não estou preparada…

A apresentação magistral do cantor e compositor Raimundo Fagner na tradicional Festa do Chitão, em Cedro-CE, abrilhantou o município de forma fenomenal. Ao chegar à cidade do padroeiro São João Batista, encontrei o pároco devidamente paramentado para o show: não de batina e solidéu, mas de camisa xadrez e calça branca, como manda o figurino da época das festividades juninas.

Munido de uma garrafinha térmica com whisky e minha mulher com outra, contendo um delicioso Pinot Noir Reserva, procurei me acomodar no meio do povo, lugar onde me sinto feliz por encontrar sempre muitos amigos que não param de relembrar o tempo em que eu trabalhara na terrinha.

Como a mente humana não dá trégua, lembrei-me de um episódio perdido na escala do tempo, envolvendo um queridíssimo amigo e outra amiga, Marlene, que cozinhava para mim e fazia mimos de mãe. Tudo aconteceu logo após um acidente de carro, no qual eu havia capotado o veículo duas vezes na estrada.

Marlene, quando soube do acidente, correu pelas ruas à procura de notícias. Ao encontrar Damião, que costumava dirigir para mim nas horas vagas, perguntou:

– Damião, é verdade que Dr. Sávio sofreu um acidente grave?

– É verdade. A moléstia deu duas cambalhotas no ar e caiu num barranco.

– E ele, como está? Aconteceu alguma coisa grave?

– Fique calma, Marlene! Deus só quer os bons…

A Motocicleta…

O estado do Ceará, em 2025, segundo dados de órgãos fiscalizadores, evidencia que os motociclistas continuam sendo o grupo mais vulnerável no trânsito. Embora ainda não exista um único relatório estadual que reúna exclusivamente todos os acidentes envolvendo motocicletas, sabe-se que uma parcela expressiva das mortes no trânsito envolve esse tipo de veículo.

Os motociclistas representam a maioria das vítimas fatais nas vias cearenses. Homens entre 18 e 39 anos constituem o perfil predominante dos óbitos. Excesso de velocidade, consumo de álcool, ultrapassagens perigosas, imprudência e o uso inadequado de equipamentos de proteção permanecem entre os principais fatores associados aos acidentes.
Grande parte dessas mortes poderia ser evitada por meio de políticas públicas mais eficazes, fiscalização permanente, educação para o trânsito e infraestrutura adequada. A perda de jovens não representa apenas a dor irreparável de uma família; significa também um enorme prejuízo social e econômico para o país, que deixa de contar com vidas produtivas interrompidas precocemente.
O Projeto Receitando Cordel”, que alerta a população sobre os principais problemas de saúde pública no distrito de Caipu, em Cariús (CE), desenvolveu um trabalho abrangente na rede pública de ensino, envolvendo estudantes, educadores, famílias e diversos segmentos da sociedade. Após anos de orientação e conscientização de jovens e adultos, eis o diálogo recente que tive com uma paciente, logo após a morte de uma jovem em um acidente de motocicleta. Ela ainda buscava uma explicação para uma tragédia cuja responsabilidade insistia em atribuir ao lugar errado.
– Dr. Sávio, eu descobri que moto é um bicho que não pensa. Imagine o que ela fez com minha sobrinha.
Estático, compreendi que naquela frase havia mais do que lógica. A motocicleta não pensa; quem deve pensar é quem a conduz e também quem legisla, fiscaliza, educa e planeja o trânsito. Quando todos falham, a culpa recai sobre a máquina, enquanto os verdadeiros responsáveis permanecem invisíveis.

O Colchão

Desde os primórdios da civilização, o Homo sapiens desobedece ao nono Mandamento da Lei de Deus. Enquanto o sexto mandamento se refere principalmente aos atos contrários à castidade e à fidelidade, o nono dirige-se ao mundo interior, aos desejos que habitam a consciência e precedem as ações. Mais do que uma simples proibição, esse mandamento constitui um chamado ao respeito pela dignidade da pessoa humana.

Observa-se que nos dias atuais, ele continua sendo aviltado e desmoralizado diante da liberalidade sexual que se expandiu pelo mundo a partir da segunda metade do século XX. Também evoluiu significativamente a forma de se lidar com a síndrome depressiva que pode surgir nos primeiros dias após a descoberta de uma infidelidade. Antigamente, para amenizar os males da traição amorosa, sobretudo entre os homens, recorria-se a artimanha de comprar uma garrafa de cachaça, ouvir um CD de Reginaldo Rossi e alugar o ombro de um amigo para afogar as mágoas. Hoje, procura-se um psiquiatra, inicia-se tratamento com sertralina, realizam-se algumas sessões de psicoterapia e, não raro, obtém-se um atestado médico. 

Certa vez, um fato pitoresco aconteceu com o impetuoso cidadão de codinome PP. Ao chegar em casa, embriagado, encontrou a esposa nos braços de outro homem. Indignado, expulsou a consorte do lar e queimou o colchão na via pública, deixando os vizinhos boquiabertos diante da cena.

No dia seguinte, ainda sob os efeitos da ressaca e no auge da prostração, pediu perdão à esposa, trouxe-a de volta para casa e adquiriu, a crédito, um consócio de duas redes, parcelado em doze suaves prestações.

Afinal, entre o fogo da indignação e o arrependimento da manhã seguinte, o colchão foi a única vítima que não teve direito ao perdão.