Há poucos dias, minha sobrinha, enfermeira, contou-me, bastante preocupada, que havia levado a filha ao oftalmologista por causa de uma inflamação no olho. Ao ver a fotografia da criança, percebi logo que se tratava de um hordéolo, uma inflamação muito comum, especialmente na infância, conhecida popularmente como terçol. Na maioria das vezes, o tratamento é simples, com compressas mornas e cuidados locais.
A preocupação da mãe da criança fez-me voltar quase cinquenta anos no tempo e lembrar de uma aula de oftalmologia que perdi quando cursava Medicina, em Recife. Quase no final do curso, quando começávamos as disciplinas clínicas, chegou a vez da Oftalmologia. Eram cadeiras rápidas, com muito conteúdo para estudar em pouco tempo. Naquela época, a Oftalmologia me parecia particularmente complicada: ângulos, lentes, graus, cálculos e toda aquela história dos óculos exigiam certa dose de paciência e acabavam provocando algum desânimo nos estudantes. Numa dessas tardes, resolvi ir ao cinema, sacrificando uma aula. Antes, pedi a um colega que assinasse a frequência por mim.
No dia seguinte, quando o encontrei, veio a surpresa:
– Você perdeu a melhor aula de Oftalmologia!
Perguntei, curioso, qual havia sido o assunto.
– A aula de Treiçol e Dordói!
Era a maneira bem-humorada de se referir ao hordéolo e à conjuntivite, duas afecções extremamente comuns na prática médica.
No dia 11 de setembro de 2001, o mundo parou diante da televisão. As imagens das torres do World Trade Center, em Nova York, atingidas por aviões, repetiam-se sem cessar. Rádios e televisões interrompiam suas programações. Nas ruas, nas repartições e nas casas, não se falava em outra coisa. Havia medo, espanto e uma sensação de que ninguém sabia exatamente o que ainda poderia acontecer.
Em Várzea Alegre, no Ceará, a notícia também corria de boca em boca. Na rua principal da cidade, quase em frente à Igreja Matriz, funcionava uma conhecida loja de calçados chamada Mart Center. No meio daquela confusão de notícias vindas dos Estados Unidos, a mãe de um motorista do serviço público ouviu falar repetidas vezes no tal “World Trade Center”. Não dominava muito bem aqueles nomes estrangeiros, mas entendeu o essencial ou, pelo menos, imaginou que tivesse entendido.
Muito preocupada, pegou o telefone e ligou para o filho:
– Meu filho, pelo amor de Deus, não vá hoje para aquelas bandas do Mart Center!
– Por que, mãe?
– Você não está vendo as notícias, não? Estão destruindo todos os Mart Center do mundo!
Para aquela mãe aflita, pouco importava se em Nova York se chamava World Trade Center e, em Várzea Alegre, Mart Center.
Infância sem internet
Sávio Pinheiro
No laboratório de robótica do parque dos Asininos, na terra do Padre Vieira, acontece um fato marcante. Zé Lotero apresenta a dupla de equídeos que voam através do tempo utilizando apenas a senha mágica “Voa, Pavão!”
– Vovô, esses animais de asas grandes, semelhantes aos pterossauros – os dinossauros voadores –, o que eles fazem?
– Viajam no espaço e no tempo. Querem conhecer a época em que vovô era criança como vocês? Um período em que não existia celular nem internet?
– E, por acaso, existe algum lugar assim?
Montados no Jumento-Nosso-Irmão e na Burrinha Gasolina, após mentalizar a cidade dos contrastes, Várzea Alegre, CE, ano de 1969, eles acionam o comando de voz, entoando alto a conhecida senha “Voa, Pavão!” No alto, voam por entre nuvens, planetas e estrelas cadentes, aproveitando o afago da poesia.
Pousam com dificuldade na calçada da igreja matriz, devido a uma forte chuva.
– A aventura começa aqui. Se quiserem viver algo diferente, estão liberados. Retirem as camisetas e corram, no sopro do vento, para outra realidade.
A meninada, tomando banho embaixo das bicas da catedral, chama-lhes a atenção. Eles se misturam com o grupo e caem na farra. Descem a escadaria da igreja em grande velocidade para colher seriguelas, sem autorização, no quintal da casa do padre. Após se deliciarem com as apetitosas frutas, acompanham os novos amigos em direção ao mercado público. Pegam baladeiras emprestadas para a caça de passarinhos. Encantam-se com o vendedor de corrupios feitos de cacos de cuia. Comem broas tiradas do balaio. Brincam de esconde-esconde. Brecham a jovem que, de vestido, anda de bicicleta. Participam de um jogo de futebol em via pública. Atiram pedras nos telhados das casas. Apelidam pessoas da rua. Seguem um palhaço de circo, gritando palavras de ordem. Correm descalços pela feira das panelas. Veem jegues com cangalhas e caçambas levando água às residências. Só então percebem que estão conectados com a vida, longe das telas coloridas dos modernos celulares.
Sinto muita saudade da minha infância, quando eu vivia em uma pequenina cidade. Hoje, tudo mudou. A urbe ficou eletrizante; as pessoas modificaram seus hábitos de vida, assim como os costumes e até a maneira de se relacionar. Antigamente, tudo parecia diferente. Todos se conheciam, se respeitavam e viviam em harmonia. Hoje, trabalho em uma localidade, que muito se assemelha ao cenário da minha infância feliz.
Um dia desses, fiquei na vila até mais tarde. Quando entrei no carro para voltar para casa, notei algo muito estranho… A rua estava completamente vazia. Não havia cadeiras nas calçadas nem crianças brincando. Aquilo me chamou a atenção e me fez pensar: o que estaria acontecendo ali? Procurei me informar e me disseram que naquela tarde, era o dia em que Costinha costumava tomar o seu porre de quinta-feira e ficar bêbado para valer. Ele possuía um Chevette antigo, com pneus carecas e sem cano de escape, que fazia um barulho retumbante. No auge da embriaguez, costumava desfilar pelas poucas ruas do lugar, dirigindo de maneira perigosa, subindo e descendo calçadas e colocando em risco quem estivesse pelo caminho. Diante da situação, seus conterrâneos se reuniram para decidir o que fazer. A solução encontrada, por mais absurda que possa parecer, foi orientar todos a respeitarem o “dia dele”. Naquela tarde, as pessoas deveriam permanecer dentro de casa, retirar as cadeiras das calçadas e não deixar as crianças saírem.
Um silêncio ensurdecedor ruminava a estranha poesia do ocaso.
OS LIMITES DA PERCEPÇÃO
Estive meditando sobre o que faria se ganhasse o prêmio máximo da Mega-Sena, sonho de tanta gente que enfrenta as dificuldades do dia a dia. O primeiro pensamento é que qualquer dificuldade estaria resolvida. Mas a realidade pode ser bem diferente. Ganhar uma grande quantidade de dinheiro e saber o que fazer com ela é tarefa deveras difícil.
O dinheiro multiplica possibilidades, mas não amplia, por si só, a percepção de quem o recebe. A pessoa passa a possuir recursos capazes de sanar muitas dificuldades, porém pode continuar presa às antigas referências, aos mesmos costumes, aos grandes temores e à mesma visão de mundo.
Não quero dizer que pessoas mais estudadas sejam necessariamente mais sábias. Há gente de pouca escolaridade com extraordinário senso crítico, assim como pessoas cultas capazes de dilapidar patrimônios.
Lembrei, então, de Venceslau, um motorista profissional.
– Venceslau, o que você faria se ganhasse sozinho o prêmio máximo da Mega-Sena?
– Primeiro, quitava minha casinha no loteamento Santa Terezinha.
– E depois?
– Depois eu ia a Brasília e dizia: Zé Sarney, pode se levantar dessa cadeira, porque agora ela é minha!
João Teixeira, meu tio-avô, nunca se casou. Ainda na adolescência, sofreu um grande desengano amoroso e decidiu seguir a vida sozinho. Para preencher o vazio deixado pela frustração, encontrou nos livros uma companhia fiel.
Todo o dinheiro que conseguia economizar era investido em obras para a sua biblioteca. Lia durante horas, todos os dias. Naquele tempo, em que não havia internet e as bibliotecas eram raras nas pequenas cidades, sua casa transformou-se, na prática, em uma biblioteca pública. Estudantes iam procurá-lo em busca de orientação para trabalhos escolares, sugestões de leitura e esclarecimento de dúvidas. João Teixeira tornou-se uma verdadeira enciclopédia viva da cidade.
Apesar da vasta cultura, conservava um humor irreverente. Sempre que encontrava uma moça conhecida, em vez de desejar “bom dia”, saudava-a com um inesperado:
— Bundinha!
As jovens sorriam, sem entender muito bem a estranha saudação. Até que, certo dia, uma delas, mais ousada, resolveu perguntar:
— Seu João Teixeira, por que o senhor diz “bundinha”, em vez de “bom dia”?
Sem hesitar, ele respondeu, com a maior naturalidade:
— Por nádegas.
Mestre Heleno era um dos personagens mais admirados da minha infância. Saxofonista da banda de música municipal, parecia transformar o sopro do instrumento em poesia. Nas festas do padroeiro, era ele quem alegrava as ruas com dobrados e marchas. À noite, acompanhava os rapazes que saíam em serenata, emprestando às canções um romantismo que ainda hoje ecoa na minha memória.
Na imaginação daquele menino, Mestre Heleno não era apenas um músico. Era o maior saxofonista do mundo. Um verdadeiro mestre da música.
Os anos passaram. Formei-me em Medicina e fui trabalhar justamente na cidade onde ele vivia. Certa manhã, durante o atendimento no serviço público, a porta do consultório se abriu e ele entrou.
Fiquei profundamente emocionado. Eu, médico recém-formado, teria diante de mim aquele homem que tanto admirara. Recebi-o com entusiasmo:
— Mestre, em que posso ajudá-lo?
Ele sorriu com a humildade que lhe era própria e respondeu:
— Doutor, me desculpe, mas eu não vim para o senhor me receitar, não. Vim lhe pedir uma pequena ajuda para comprar um quilo de arroz.
Confesso que aquelas palavras me atingiram como poucas coisas na vida. O homem que enchia de beleza as festas da cidade, que embalava serenatas e despertava sonhos em tantos jovens, lutava para conseguir o alimento daquele dia.
Nunca esqueci essa cena.
Talvez ela tenha me ensinado que o talento nem sempre é recompensado, que a arte nem sempre sustenta quem a produz e que, muitas vezes, os maiores mestres vivem anonimamente entre nós, carregando dignidade onde a sociedade lhes negou reconhecimento.
Somente hoje encontro coragem para contar esse episódio. Não para expor Mestre Heleno, mas para homenageá-lo e lembrar que, antes de qualquer aplauso, um artista precisa viver com dignidade.
Fortaleza concentra uma das mais importantes redes públicas de equipamentos culturais do Brasil, administrada pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult Ceará). Muito além de espaços destinados à realização de eventos, esses equipamentos desempenham um papel estratégico na preservação da memória, na democratização do acesso à cultura, na formação artística e no fortalecimento da economia criativa.
Integrando a Rede Pública de Espaços e Equipamentos Culturais do Estado do Ceará (Rece), esses centros culturais são referências nacionais pela diversidade de suas ações e pela qualidade de sua programação. Exposições, espetáculos, festivais, mostras de cinema, cursos, oficinas, seminários, concertos, apresentações teatrais, atividades educativas e projetos de inclusão social fazem parte do cotidiano desses espaços, que recebem milhares de visitantes ao longo do ano.
Entre os principais equipamentos culturais localizados em Fortaleza destacam-se o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, um dos maiores complexos culturais do país; o histórico Theatro José de Alencar, símbolo da arquitetura e das artes cênicas cearenses; a Pinacoteca do Ceará, dedicada às artes visuais; a Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece), referência em leitura, pesquisa e formação; o Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS), que alia tecnologia, memória e inovação; a Estação das Artes, importante espaço de convivência e programação multicultural; o Cineteatro São Luiz, patrimônio afetivo da cidade; o Museu do Ceará, o Museu da Cultura Cearense, o Museu de Arte Contemporânea do Ceará, o Sobrado Dr. José Lourenço, o Hub Cultural Porto Dragão, a Escola Porto Iracema das Artes, a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, a Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco, o Teatro Carlos Câmara, entre outros equipamentos que compõem essa ampla rede estadual.
Esses espaços reafirmam o compromisso do Governo do Estado com políticas públicas culturais permanentes, promovendo acesso gratuito ou a preços populares a bens e serviços culturais, estimulando a formação de artistas, pesquisadores e produtores culturais e incentivando a valorização das múltiplas identidades que constituem o povo cearense.
Além de fortalecerem a produção artística local, os equipamentos culturais da Secult Ceará tornam Fortaleza um dos principais polos culturais do Nordeste, atraindo visitantes, pesquisadores, estudantes e artistas de diversas regiões do Brasil e do exterior. Cada equipamento possui uma identidade própria, mas todos compartilham a missão de transformar a cultura em instrumento de desenvolvimento humano, inclusão social, educação e cidadania.
Investir e valorizar esses equipamentos significa preservar a memória do Ceará, incentivar a criação artística, ampliar o acesso da população à cultura e garantir que as futuras gerações continuem encontrando nesses espaços lugares de encontro, aprendizado, reflexão e celebração da diversidade cultural cearense.
* EQUIPAMENTOS CULTURAIS | SECULT-CE