O OPÚSCULO NOSSO DE CADA SEXTA: Nº 18 - Infância sem internet | Por SÁVIO PINHEIRO - Médico e Poeta

Infância sem internet
Sávio Pinheiro

No laboratório de robótica do parque dos Asininos, na terra do Padre Vieira, acontece um fato marcante. Zé Lotero apresenta a dupla de equídeos que voam através do tempo utilizando apenas a senha mágica “Voa, Pavão!”
– Vovô, esses animais de asas grandes, semelhantes aos pterossauros – os dinossauros voadores –, o que eles fazem?
– Viajam no espaço e no tempo. Querem conhecer a época em que vovô era criança como vocês? Um período em que não existia celular nem internet?
– E, por acaso, existe algum lugar assim?
Montados no Jumento-Nosso-Irmão e na Burrinha Gasolina, após mentalizar a cidade dos contrastes, Várzea Alegre, CE, ano de 1969, eles acionam o comando de voz, entoando alto a conhecida senha “Voa, Pavão!” No alto, voam por entre nuvens, planetas e estrelas cadentes, aproveitando o afago da poesia.
Pousam com dificuldade na calçada da igreja matriz, devido a uma forte chuva.
– A aventura começa aqui. Se quiserem viver algo diferente, estão liberados. Retirem as camisetas e corram, no sopro do vento, para outra realidade.
A meninada, tomando banho embaixo das bicas da catedral, chama-lhes a atenção. Eles se misturam com o grupo e caem na farra. Descem a escadaria da igreja em grande velocidade para colher seriguelas, sem autorização, no quintal da casa do padre. Após se deliciarem com as apetitosas frutas, acompanham os novos amigos em direção ao mercado público. Pegam baladeiras emprestadas para a caça de passarinhos. Encantam-se com o vendedor de corrupios feitos de cacos de cuia. Comem broas tiradas do balaio. Brincam de esconde-esconde. Brecham a jovem que, de vestido, anda de bicicleta. Participam de um jogo de futebol em via pública. Atiram pedras nos telhados das casas. Apelidam pessoas da rua. Seguem um palhaço de circo, gritando palavras de ordem. Correm descalços pela feira das panelas. Veem jegues com cangalhas e caçambas levando água às residências. Só então percebem que estão conectados com a vida, longe das telas coloridas dos modernos celulares.