O cenário não poderia ser outro. O Riacho do Machado pertence à geografia afetiva de Bruno. Foi nas proximidades de sua ribeira que ele nasceu e viveu parte da infância, antes de ganhar o mundo, cruzar a linha do Equador e construir na Europa uma longa e reconhecida trajetória artística.
Babinski fez o caminho inverso. Nascido na Polônia, atravessou oceanos e hemisférios até chegar ao Brasil. Em Brasília, encontrou Lídia, sua companheira. Casaram-se e vieram morar no Ceará, justamente às margens do Riacho do Machado, no mesmo lugar de onde Bruno Pedrosa havia partido para o mundo.
Décadas depois, coloquei os dois frente a frente, não diante de cavaletes e pincéis, mas numa imaginária peleja de viola, transformando em septilhas o encontro de duas vidas que cruzaram a linha do Equador em sentidos contrários.
Menino ainda, Bruno frequentava as feiras sertanejas e se encantava com as bancas de literatura de cordel. Ali estavam os pequenos folhetos, pendurados ou espalhados, trazendo nas capas os rostos dos grandes personagens do imaginário nordestino: violeiros, cantadores, escritores, políticos, beatos e santos. Para ele, estar na capa de um cordel era quase uma consagração.
Cego Aderaldo, Zé Pretinho do Tucum, Romano da Catingueira, José de Souza Leão, Ventania, Pedra Azul e tantos outros povoavam aquele universo. Eram, aos seus olhos, verdadeiros heróis do sertão. Ter a vida narrada em versos, impressa num folheto e cantada pelas feiras sertão afora era alcançar uma espécie de glória.
Foi esse menino que reapareceu quando lhe enviei, para Asolo, na Itália, os exemplares da peleja que eu havia escrito. Sua reação me comoveu.
Bruno recebeu os folhetos com uma alegria quase infantil. Parecia não acreditar que, finalmente, também ele estava estampado na capa de um cordel. E fez algo ainda mais bonito: colocou o seu folheto junto aos antigos cordéis que guardava, aqueles mesmos que traziam os heróis de sua infância.
Há sonhos que atravessam quarenta, cinquenta anos em silêncio. Até que um dia alguém escreve alguns versos, imprime um pequeno folheto e, sem perceber, devolve a um homem o menino que ele nunca deixou de ser.