O OPUSCULO NOSSO DE CADA SEXTA: Nº 14 - O anonimato dos mestres | Por SAVIO PINHEIRO - Médico e Poeta

Mestre Heleno era um dos personagens mais admirados da minha infância. Saxofonista da banda de música municipal, parecia transformar o sopro do instrumento em poesia. Nas festas do padroeiro, era ele quem alegrava as ruas com dobrados e marchas. À noite, acompanhava os rapazes que saíam em serenata, emprestando às canções um romantismo que ainda hoje ecoa na minha memória.
Na imaginação daquele menino, Mestre Heleno não era apenas um músico. Era o maior saxofonista do mundo. Um verdadeiro mestre da música.
Os anos passaram. Formei-me em Medicina e fui trabalhar justamente na cidade onde ele vivia. Certa manhã, durante o atendimento no serviço público, a porta do consultório se abriu e ele entrou.
Fiquei profundamente emocionado. Eu, médico recém-formado, teria diante de mim aquele homem que tanto admirara. Recebi-o com entusiasmo:
— Mestre, em que posso ajudá-lo?
Ele sorriu com a humildade que lhe era própria e respondeu:
— Doutor, me desculpe, mas eu não vim para o senhor me receitar, não. Vim lhe pedir uma pequena ajuda para comprar um quilo de arroz.
Confesso que aquelas palavras me atingiram como poucas coisas na vida. O homem que enchia de beleza as festas da cidade, que embalava serenatas e despertava sonhos em tantos jovens, lutava para conseguir o alimento daquele dia.
Nunca esqueci essa cena.
Talvez ela tenha me ensinado que o talento nem sempre é recompensado, que a arte nem sempre sustenta quem a produz e que, muitas vezes, os maiores mestres vivem anonimamente entre nós, carregando dignidade onde a sociedade lhes negou reconhecimento.
Somente hoje encontro coragem para contar esse episódio. Não para expor Mestre Heleno, mas para homenageá-lo e lembrar que, antes de qualquer aplauso, um artista precisa viver com dignidade.