
Sinto muita saudade da minha infância, quando eu vivia em uma pequenina cidade. Hoje, tudo mudou. A urbe ficou eletrizante; as pessoas modificaram seus hábitos de vida, assim como os costumes e até a maneira de se relacionar. Antigamente, tudo parecia diferente. Todos se conheciam, se respeitavam e viviam em harmonia. Hoje, trabalho em uma localidade, que muito se assemelha ao cenário da minha infância feliz.
Um dia desses, fiquei na vila até mais tarde. Quando entrei no carro para voltar para casa, notei algo muito estranho… A rua estava completamente vazia. Não havia cadeiras nas calçadas nem crianças brincando. Aquilo me chamou a atenção e me fez pensar: o que estaria acontecendo ali? Procurei me informar e me disseram que naquela tarde, era o dia em que Costinha costumava tomar o seu porre de quinta-feira e ficar bêbado para valer. Ele possuía um Chevette antigo, com pneus carecas e sem cano de escape, que fazia um barulho retumbante. No auge da embriaguez, costumava desfilar pelas poucas ruas do lugar, dirigindo de maneira perigosa, subindo e descendo calçadas e colocando em risco quem estivesse pelo caminho. Diante da situação, seus conterrâneos se reuniram para decidir o que fazer. A solução encontrada, por mais absurda que possa parecer, foi orientar todos a respeitarem o “dia dele”. Naquela tarde, as pessoas deveriam permanecer dentro de casa, retirar as cadeiras das calçadas e não deixar as crianças saírem.
Um silêncio ensurdecedor ruminava a estranha poesia do ocaso.